Do quintal ao coração do lar

Durante milênios, a presença de animais no cotidiano humano esteve ligada a funções práticas: trabalho no campo, guarda de propriedades ou proteção da família. Cães, por exemplo, eram vistos muito mais como aliados funcionais do que como companheiros afetivos. Mas essa lógica mudou.

Nas últimas décadas, o significado de animal de estimação foi transformado por completo. O que antes era apenas companhia tornou-se parte central da vida afetiva, da saúde emocional e do estilo de vida de milhões de pessoas. Hoje, o pet ocupa um lugar simbólico e emocional dentro das famílias, influenciando hábitos de consumo, rotinas e, cada vez mais, decisões importantes como a escolha de um imóvel.

Esse fenômeno é particularmente visível nas grandes cidades brasileiras, onde a verticalização da moradia e a vida em apartamentos exigem adaptações. Nesse novo contexto urbano, o pet deixou de ser apenas um morador tolerado para se tornar um fator determinante na escolha de um condomínio.

Os números ajudam a explicar a dimensão dessa mudança. O Brasil já ocupa posição de destaque no mercado global pet, figurando entre os maiores do mundo. Estimativas recentes indicam que o país possui cerca de 160,9 milhões de animais de estimação, número que supera com folga a população infantil.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha pouco mais de 39 milhões de crianças de até 13 anos em 2024. Já o setor pet aponta para um universo de aproximadamente 160 milhões de animais de estimação, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). Na prática, isso significa que as famílias brasileiras têm quatro vezes mais pets do que crianças. Naturalmente, essa mudança chega ao mercado imobiliário.

Tradicionalmente, ao escolher um apartamento, os compradores avaliavam itens como academia, piscina, salão de festas ou número de vagas na garagem. Esses elementos continuam relevantes, mas um novo critério vem ganhando força: a infraestrutura dedicada aos animais.

Os chamados pet spaces — áreas projetadas para a convivência e o cuidado com animais dentro dos condomínios — tornaram-se um diferencial competitivo em lançamentos imobiliários. Esses espaços podem incluir:

  • áreas de recreação para cães
  • circuitos de agility
  • espaços para banho e secagem
  • áreas de convivência específicas para tutores e pets

Mais do que um luxo, esses ambientes respondem a uma necessidade concreta de quem vive em apartamentos, onde o espaço privativo costuma ser limitado.

Para incorporadoras e construtoras, o fenômeno representa uma mudança estratégica. Projetos imobiliários que ignoram a presença massiva de pets correm o risco de se tornar menos atrativos para uma parcela significativa do público urbano.

Hoje, incluir infraestrutura pet não é apenas uma questão de marketing, mas de alinhamento com um novo perfil de consumidor.

Em um país onde os pets já superam as crianças em número, fica cada vez mais evidente que o mercado imobiliário também precisa pensar e projetar para essa nova configuração familiar.

Afinal, quando um animal deixa de ser apenas um companheiro e passa a ser parte da família, ele também passa a influenciar onde e como queremos viver.

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